domingo, 31 de outubro de 2010

Catarse

Rodrigo abriu o livro na página que havia marcado com um clipes. Era a quinta vez que tentava ler a mesma página. No entanto, tudo parecia tão confuso que aquele emaranhado de frases naquela folha não faziam sentido algum. Eram dias esquisitos, dias preguiçosos. Certamente, não eram dias propícios para leitura.
Passou a mão em sua mochila à procura de um maço de cigarros, mas não o encontrou. Lembrou que havia esquecido de comprar. Na realidade, não havia comprado. Aqueles dias apáticos também eram dias de pindura, de calças curtas ou de qualquer outra expressão popular que representasse a sua situação financeira.
Toda aquela situação caótica deixava Rodrigo um tanto quanto melancólico. Talvez pelo excesso de músicas tristes ou pelas malditas aulas de terça-feira ou até mesmo porque a menina do sorriso torto havia desaparecido. Rodrigo não tinha certeza do que andava lhe causando dias nublados e olheiras matutinas. Ele já não tinha certeza de nada.
Rodrigo acreditava que se não tivesse deixado a faculdade de história nada daquilo estaria acontecendo. Não teria conhecido Sabrinas e nem Fernandas, não estaria dormindo e comendo mal e muito menos se enfiando em relacionamentos fadados ao nada.
A vida de Rodrigo havia se tornado um hiato. Um grande hiato criativo. Apenas alguns fragmentos e frases desconexas e tão confusas que ele procurava não ler. Certamente, a vida havia sido mais interessante e criativa em outros carnavais.
Na tentativa de fugir daquela mediocridade, Rodrigo guardou a sua vida no bolso, colocou a blusa de frio e seguiu pra sala de aula. O verão, definitivamente, ficaria pra mais tarde.

Pra ouvir: Manic Street Preachers – This is yesterday

quarta-feira, 25 de agosto de 2010



"Well, now that you have my heart, I’m pretty much an empty cavity inside, for a lack of a better term: heartless."

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Appointments on a dance floor

A menina do último sábado sorria alucinadamente entre inúmeros copos de vodka e latas de energético. Exibia os quadris assimétricos e libertinos em cada ida ao bar e nos passos de alguma música batida. O cheiro do escapismo a direcionava a caminho da bebida e do aglomerado de pessoas que se enfileiravam em frente às garrafas de tequila. O olhar desorientado e confuso caçava lentamente a sua presa noturna. As suas pupilas dilatadas começaram a me encarar e me sorrir lisergicamente. A dicróica ressaltava o seu andar confuso em direção ao meu excesso de sobriedade. Os olhos pareciam mais conscientes que a boca que insistia em falar coisas sem pensar. Seus movimentos ficavam ainda mais espasmódicos e deliberados a cada palavra boba e infantil. A cada passo se embrenhava mais no pouco que restava de mim. Naqueles minutos eu já não era "mais meu". Apenas consentia e me deixava levar aos seus ímpetos etílicos. Ímpetos repletos de entrelinhas e de puro formalismo. Passava o tempo se entopindo de inumeras "doses de mim" com toda sua voracidade e leviandade. Levantou ao som do seu nome e da mentira de sua aparência escondida atrás de mais um copo de falso esquecimento. Depois se desfez como fumaça de cigarro.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sangue

É aí, que a nossa semelhança acaba.

Constantes

Constante na matemática é um valor numérico que não se modifica independente de suas variáveis. Constante no cotidiano ordinário é aquela que causa dor, noites mal dormidas, dependência física e emocional. Constante é a grandeza que desloca a vida, modifica tudo que era certo e real. Constante é aquela que deixa destruição e sangue para trás. É a aquela que mantém a sua idéia fixa num relacionamento instável e inviável. É aquela que você procura em todas as outras meninas que passam por sua cama. É a responsável por todas as lágrimas, palavras desperdiçadas e pelos seus pedaços esparramados pelo chão. Mas ainda é a aquela que te faz sorrir com apenas um olhar perdido.
daqui: olhos certos

sábado, 13 de março de 2010

Interlúdio

Três e meia da manhã e você continua a vomitar centenas de palavras que entram pelos meus ouvidos sem pedir licença. A minha vida para em função de suas dissílabas, monossílabas e polissílabas embriagadas. Eu tento procurar um espaço entre as suas pequenas pausas pra dizer as milhares de coisas que passam pela minha cabeça mas você nunca deixa, me interrompe novamente com o sorriso mais bonachão do mundo:
- Quer dançar?