domingo, 14 de fevereiro de 2010

Variável

Ela devia ter uns 26 anos, olhos pequenos, nariz com certo charme rústico, um andar um tanto quanto irregular e engraçado, pernas finas e sempre costumava falar no imperativo. Vestia quase sempre aquela mesma blusa verde com listras pretas ou aquela vinho do nosso primeiro encontro. Havia algo estranho na menina da blusa listrada, e eu me perguntava o tempo todo o que era, enquanto salivava por ela.
Talvez fosse a maneira como ela pegava em minha mão enquanto mudava as marchas do carro, ou os assuntos que ficavam criativos e mais interessantes quando saiam da boca dela ou até mesmo as músicas ruins que tornavam-se boas perto dela. Não sabia bem o que era mas ainda assim eu acreditava que havia algo errado com ela, afinal, o que uma menina tão interessante fazia com um cara estranho como eu.
Durante as poucas semanas em que ficamos juntos, pouco falamos um ao outro. Nosso relacionamento ficou em inúmeras situações restrito ao sexo. Sexo no estacionamento, no chão, no banheiro do bar, no parque e uma tentativa embaraçosa no cinema. Algumas das melhores trepadas da minha vida, seguidas de longos cochilos.
A intenção talvez fosse continuar a ser desconhecidos que eram próximos de alguma maneira. De certa forma, a gente era uma canção do Wilco. Intensa, experimental, repleta de altos e baixos e extremamente curta.
Rompemos aquilo que de alguma forma chamávamos de relacionamento numa sexta-feira, sem necessariamente romper. Terminamos exatamente como começamos. Um pra cá, outro pra lá e a sensação de que ainda havia algo errado.

Pra ouvir: Rilo Kiley – Does He Loves you?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

So this is the New Year and I don't feel any different

O pequeno relógio em cima da mesinha marcava um pouco mais que onze horas. Mais alguns poucos minutos e toda essa idiotice de começo de ano chegaria ao fim. Não seria mais necessário cumprimentar ninguém com sorrisos falsos, nem agüentar o excesso de alegria alheia.
Ele nunca entendera o mecanismo das festas de fim de ano. Acreditava em pura conspiração. Todos queriam que ele acreditasse que natal era uma data pra se passar com a família, e o ano novo, o suposto dia mais feliz do ano, pra se comemorar com os amigos, de preferência em uma praia repleta de indivíduos com vestes brancas, suadas, fedendo espumante barata e flores secas. Tudo era apenas um grande evento social obrigatório que ele tentava burlar.
Desde o começo de sua vida adulta, tais festas eram apenas feriados quaisquer. Dias pra dormir tarde e acordar mais tarde ainda. A única diferença é que se desligava totalmente do mundo. Nada de telefone, internet e televisão. Apenas ele, uma garrafa de vinho barato e uma seleção de filmes clássicos. Algumas vezes até se permitia espiar pela janela de seu apartamento o que se passava lá em baixo. Mas era apenas para resmungar dos muitos bêbados abobados com o céu colorido devido as explosões fornecidas pela prefeitura.
A última vez que tentou celebrar o ano novo, mesmo que tenha sido apenas por convenção social, foi na casa de seus pais com o resto de sua família que já começava a se definhar. Nada tinha a mesma graça da infância. Já não havia mais a alegria de seu pai cantando pelos cantos da casa, as tias velhas dançando, o pernil de sua mãe e a gritaria de seus amigos. Tudo acabara. As crianças haviam crescido, as tias velhas morreram, os amigos sumiram e o cheiro de pernil e a cantoria cessaram.
Festas de fim de ano não foram idealizadas por e para meninos solitários. Acreditava não haver mais razões para comemorar a merda de um ano que acaba e celebrar a porcaria de outro que inicia-se. Afinal, todos os anos são iguais, apenas diferem na quantidade de amigos e namoradas que você ganha e perde, geralmente na mesma proporção.
Em algum momento aquilo era engraçado e deprimente. Mais deprimente que engraçado. Por alguns minutos, enquanto olhava as pessoas embriagadas passando pelas ruas, refletiu sobre boa parte de sua vida atual. De como deixara de ser o cara que acreditava ser independente para o adulto solitário e ranzinza. De como abandonara e havia sido abandonado por todos.
Assim que os fogos começaram a explodir no céu, ele retornou ao quarto e foi em direção a coleção de CDs. Colocou Transatlanticism do Death Cab pra tocar. Caminhou lentamente, saboreando cada trago de seu cigarro. Sentou na cama e respirou fundo enquanto abria a velha gaveta. Com as mãos tremulas e uma tentativa de sorriso, pegou a arma e deu um tiro na cabeça, esparramando boa parte dos seus miolos sobre um calendário de 2010.
Finalmente um começo de ano diferente.

“So this is the new year.
And I don't feel any different.
The clanking of crystal
explosions off in the distance (in the distance)”.

The New Year – Death cab for the cutie

sábado, 10 de outubro de 2009

mãos lentas




Can't you see what you've done to my heart and soul?
This is a wasteland now


Tamaê ok.

sábado, 3 de outubro de 2009

9552 horas

Colocou aquela blusa preta com capuz e ensaiou a sua saída pela porta da frente. Sair por aquela porta significava muito pra ele. Depois de 398 dias conseguiria pela primeira vez ficar livre dela. Sentia como se pudesse respirar novamente.
Disse algumas poucas palavras, numa tentativa de fazê-la se sentir culpada por aquela saída, mas não conseguiu. Ela nem o olhava, mantinha a cabeça baixa enquanto tirava o esmalte vermelho das unhas, daquele mesmo jeito cruel e frio dos últimos meses.
Ele não soube o que fazer. Olhou pro sofá do canto, tentou evitar trocas de olhares, sorrisos ou palavras. Pensou em diversos assuntos, nas muitas coisas não resolvidas, sobre o quanto ele estava feliz em sair da vida dela, quem ia ficar com o gato e com o pôster do Joy Division, mas não conseguiu pronunciar uma palavra sequer.
Alguns segundos de quietude foram suficientes para que ele descobrisse que não sentiria falta dela, e que estava pronto pra deixá-la ali naquele sofá. Ela, seu mau humor crônico e seu egoísmo. Outubro já batia a porta, e a vida voltaria a ter graça longe dela.
Assim que ele seguiu em direção a porta, ela cedeu.
- Deixa a sua chave na mesinha.
Saiu pela porta com a sensação de que nada havia acontecido

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Do verbo haver

Havia dois invernos, manhãs nubladas e pores-do-sol laranja. Havia clipes metálicos, fios de cabelo e pedaços de papel rabiscados por sei-lá-quem sobre a mesa. Havia vertigens (sempre as vertigens), excesso de cafeína e abstinência de nicotina. Havia bocejos, coriza e dores musculares. Havia treze reais e algumas moedas de dez centavos, nove horas e alguns poucos minutos e três pedaços e meio de chiclete. Havia cheiro de pão na chapa, xícaras de café esparramadas e farelos de bolo de fubá. Havia efeitos de ansiolíticos, excesso de vitamina B6 e ausência de paracetamol. Havia longos silêncios seguidos de vozes femininas em tom alto, sussurros e respirações ofegantes. Havia crianças e camisetas coloridas, reclamações patéticas e nomes engraçados. Havia baboseiras sem sentido, palavras monossilábicas e a sensação de que tudo aquilo iria acontecer novamente. Havia canções tristes do Blur, menções a Borges e frases do Gilmore Girls. Havia tudo, menos você.
pra ouvir: Blur - Tender

sexta-feira, 22 de maio de 2009

-Ontem eu sonhei com você novamente.
-Novamente?
-A sua presença tem sido uma constante no meu inconsciente.
-O que você sonhou dessa vez?
-Eu sonhei que nós eramos "nós" novamente.
-E como era?
-Eu tinha você perto de mim, mas tinha medo de te perder de novo.
-E isso faz sentido?
-Sonhos não fazem sentido.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Uma noite qualquer de Abril

Já passa das nove horas da noite. A lua aparece um pouco tímida no céu. Na rua, somente eu e alguns perdidos comemorando o feriado. Eu me sinto um pouco sufocado. Talvez a junção do feriado com o calor infernal me incomode um pouco.
Olho pro lado e vejo duas moças semi-nuas. Elas me olham e sorriem libidinosamente. Depois fazem algum comentário que eu não consigo ouvir. Um pouco à frente um cachorro revira o lixo. Ele fica um pouco assustado, talvez temendo a minha reação. Mais à frente, passa outro cachorro por mim. Me sinto tendo um déjà vu.
As luzes silenciosas da cidade e a brisa da noite me fazem sentir um pouco melhor. Me ajudam esquecer você por um instante. Esquecer a sua ausência. A falta que a sua falta faz.
Até acredito que a minha caminhada noturna tenha mais de você do que do calor. A minha caminhada com fundo sonoro de Modest Mouse. E Modest Mouse me lembra você. Assim como o cheiro da noite. Você ainda se faz perceptível na minha vida. Você continua sendo intragável e indigerível. Você é como um remédio que pesa no estômago e me causa efeitos colaterais. E mesmo assim, ainda sou dependente de você. Ainda sou apaixonado por uma menina mais desorientada que eu.
Mais uma noite quente e vazia de abril na minha vida.


Pra ler ouvindo: Modest Mouse – Trailer Trash