quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sangue

É aí, que a nossa semelhança acaba.

Constantes

Constante na matemática é um valor numérico que não se modifica independente de suas variáveis. Constante no cotidiano ordinário é aquela que causa dor, noites mal dormidas, dependência física e emocional. Constante é a grandeza que desloca a vida, modifica tudo que era certo e real. Constante é aquela que deixa destruição e sangue para trás. É a aquela que mantém a sua idéia fixa num relacionamento instável e inviável. É aquela que você procura em todas as outras meninas que passam por sua cama. É a responsável por todas as lágrimas, palavras desperdiçadas e pelos seus pedaços esparramados pelo chão. Mas ainda é a aquela que te faz sorrir com apenas um olhar perdido.
daqui: olhos certos

sábado, 13 de março de 2010

Interlúdio

Três e meia da manhã e você continua a vomitar centenas de palavras que entram pelos meus ouvidos sem pedir licença. A minha vida para em função de suas dissílabas, monossílabas e polissílabas embriagadas. Eu tento procurar um espaço entre as suas pequenas pausas pra dizer as milhares de coisas que passam pela minha cabeça mas você nunca deixa, me interrompe novamente com o sorriso mais bonachão do mundo:
- Quer dançar?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Variável

Ela devia ter uns 26 anos, olhos pequenos, nariz com certo charme rústico, um andar um tanto quanto irregular e engraçado, pernas finas e sempre costumava falar no imperativo. Vestia quase sempre aquela mesma blusa verde com listras pretas ou aquela vinho do nosso primeiro encontro. Havia algo estranho na menina da blusa listrada, e eu me perguntava o tempo todo o que era, enquanto salivava por ela.
Talvez fosse a maneira como ela pegava em minha mão enquanto mudava as marchas do carro, ou os assuntos que ficavam criativos e mais interessantes quando saiam da boca dela ou até mesmo as músicas ruins que tornavam-se boas perto dela. Não sabia bem o que era mas ainda assim eu acreditava que havia algo errado com ela, afinal, o que uma menina tão interessante fazia com um cara estranho como eu.
Durante as poucas semanas em que ficamos juntos, pouco falamos um ao outro. Nosso relacionamento ficou em inúmeras situações restrito ao sexo. Sexo no estacionamento, no chão, no banheiro do bar, no parque e uma tentativa embaraçosa no cinema. Algumas das melhores trepadas da minha vida, seguidas de longos cochilos.
A intenção talvez fosse continuar a ser desconhecidos que eram próximos de alguma maneira. De certa forma, a gente era uma canção do Wilco. Intensa, experimental, repleta de altos e baixos e extremamente curta.
Rompemos aquilo que de alguma forma chamávamos de relacionamento numa sexta-feira, sem necessariamente romper. Terminamos exatamente como começamos. Um pra cá, outro pra lá e a sensação de que ainda havia algo errado.

Pra ouvir: Rilo Kiley – Does He Loves you?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

So this is the New Year and I don't feel any different

O pequeno relógio em cima da mesinha marcava um pouco mais que onze horas. Mais alguns poucos minutos e toda essa idiotice de começo de ano chegaria ao fim. Não seria mais necessário cumprimentar ninguém com sorrisos falsos, nem agüentar o excesso de alegria alheia.
Ele nunca entendera o mecanismo das festas de fim de ano. Acreditava em pura conspiração. Todos queriam que ele acreditasse que natal era uma data pra se passar com a família, e o ano novo, o suposto dia mais feliz do ano, pra se comemorar com os amigos, de preferência em uma praia repleta de indivíduos com vestes brancas, suadas, fedendo espumante barata e flores secas. Tudo era apenas um grande evento social obrigatório que ele tentava burlar.
Desde o começo de sua vida adulta, tais festas eram apenas feriados quaisquer. Dias pra dormir tarde e acordar mais tarde ainda. A única diferença é que se desligava totalmente do mundo. Nada de telefone, internet e televisão. Apenas ele, uma garrafa de vinho barato e uma seleção de filmes clássicos. Algumas vezes até se permitia espiar pela janela de seu apartamento o que se passava lá em baixo. Mas era apenas para resmungar dos muitos bêbados abobados com o céu colorido devido as explosões fornecidas pela prefeitura.
A última vez que tentou celebrar o ano novo, mesmo que tenha sido apenas por convenção social, foi na casa de seus pais com o resto de sua família que já começava a se definhar. Nada tinha a mesma graça da infância. Já não havia mais a alegria de seu pai cantando pelos cantos da casa, as tias velhas dançando, o pernil de sua mãe e a gritaria de seus amigos. Tudo acabara. As crianças haviam crescido, as tias velhas morreram, os amigos sumiram e o cheiro de pernil e a cantoria cessaram.
Festas de fim de ano não foram idealizadas por e para meninos solitários. Acreditava não haver mais razões para comemorar a merda de um ano que acaba e celebrar a porcaria de outro que inicia-se. Afinal, todos os anos são iguais, apenas diferem na quantidade de amigos e namoradas que você ganha e perde, geralmente na mesma proporção.
Em algum momento aquilo era engraçado e deprimente. Mais deprimente que engraçado. Por alguns minutos, enquanto olhava as pessoas embriagadas passando pelas ruas, refletiu sobre boa parte de sua vida atual. De como deixara de ser o cara que acreditava ser independente para o adulto solitário e ranzinza. De como abandonara e havia sido abandonado por todos.
Assim que os fogos começaram a explodir no céu, ele retornou ao quarto e foi em direção a coleção de CDs. Colocou Transatlanticism do Death Cab pra tocar. Caminhou lentamente, saboreando cada trago de seu cigarro. Sentou na cama e respirou fundo enquanto abria a velha gaveta. Com as mãos tremulas e uma tentativa de sorriso, pegou a arma e deu um tiro na cabeça, esparramando boa parte dos seus miolos sobre um calendário de 2010.
Finalmente um começo de ano diferente.

“So this is the new year.
And I don't feel any different.
The clanking of crystal
explosions off in the distance (in the distance)”.

The New Year – Death cab for the cutie

sábado, 10 de outubro de 2009

mãos lentas




Can't you see what you've done to my heart and soul?
This is a wasteland now


Tamaê ok.